O Brasil exerce liderança geopolítica no Cone Sul porque reúne, ao mesmo tempo, a maior economia e o maior corpo democrático da região. Com PIB de US$ 2,28 trilhões em 2025 e 212,8 milhões de habitantes, o país tem escala suficiente para definir a agenda comercial, energética e de segurança do subcontinente — e instituições que transformam essa escala em influência.
Por que o Brasil lidera o Cone Sul
A liderança brasileira não nasce de vocação retórica, mas de assimetria de tamanho. Em 2025, o PIB brasileiro alcançou US$ 2,28 trilhões, cerca de 3,3 vezes o argentino (US$ 681 bilhões) e muito acima dos demais vizinhos do Cone Sul. O país encerrou o ano como a 11ª maior economia do mundo, segundo o Banco Mundial e estimativas da Austin Rating.
O peso demográfico acompanha a economia: são 212,8 milhões de habitantes e o maior eleitorado da América Latina. Por isso o Brasil é a maior democracia da região — não necessariamente a de melhor qualidade institucional, já que Uruguai e Chile pontuam acima em índices como o V-Dem. Essa diferença, porém, reforça o papel brasileiro: é o único ator com escala para agregar democracias de perfis distintos em torno de uma agenda comum.
Mercosul: a liderança convertida em instituição
O principal instrumento dessa liderança é o Mercosul, formado por Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai e Bolívia, com Chile, Colômbia, Peru e Equador como associados. O Brasil exerceu a presidência pro tempore do bloco em 2025 e conduziu a flexibilização da Tarifa Externa Comum, que ampliou de 100 para 150 os códigos tarifários com exceções até 2028.
O teste decisivo veio com o acordo Mercosul–União Europeia, em aplicação provisória desde 1º de maio de 2026. A convergência entre os dois blocos cria uma das maiores áreas de livre comércio do mundo — e consolida o Brasil como o articulador capaz de entregar o que os vizinhos, sozinhos, não conseguiriam acessar.
Energia e infraestrutura: poder que atravessa fronteiras
No Cone Sul, poder também se mede em megawatts e estradas. A negociação do Anexo C do Tratado de Itaipu, que deve definir nova tarifa a partir de 2027, é o exemplo mais visível: a usina binacional obriga Brasil e Paraguai a negociar continuamente, e a assimetria de mercado favorece Brasília. Somam-se a isso a Ponte da Integração e os projetos de interconexão elétrica, que ampliam a dependência mútua — e a centralidade brasileira na rede regional.
O alicerce invisível: confiança estratégica
A liderança brasileira se sustenta também no que não aparece. A ABACC, criada em 1991 pelo Acordo de Guadalajara, foi o primeiro sistema bilateral de salvaguardas nucleares do mundo. Ao verificar conjuntamente o uso pacífico de material nuclear no Brasil e na Argentina, o mecanismo transformou rivalidade histórica em confiança verificável.
No Atlântico Sul, o Brasil assumiu em 2026 a presidência da ZOPACAS, que reúne 24 países, e lidera a implementação da Estratégia de Cooperação do Rio de Janeiro — o primeiro acordo multilateral vinculante do grupo.
Os limites da liderança
Tamanho não garante obediência. A Argentina mantém agenda própria e diversifica parceiros; o Paraguai usa sua posição estratégica em Itaipu como ativo de barganha; e a baixa integração comercial intrarregional limita a conversão de peso econômico em coesão política. A liderança brasileira é real, mas condicional: depende de entregar bens públicos — financiamento de infraestrutura, estabilidade energética e previsibilidade institucional — que os vizinhos tenham interesse em compartilhar.
O que observar nos próximos meses
Três marcos devem testar essa liderança: a implementação efetiva do acordo com a União Europeia, a definição da tarifa de Itaipu para 2027 e a capacidade de o Brasil manter coesão regional em um cenário de competição entre China e Estados Unidos.
O que é o Cone Sul?
Região que reúne Brasil, Argentina, Chile, Uruguai e Paraguai.
Fontes
- Banco Mundial — Dados do Brasil (PIB e população, 2025): https://data.worldbank.org/country/brazil?locale=pt
- Estadão — “PIB: Brasil deixa grupo das 10 maiores economias do mundo em 2025” (3 mar. 2026): https://www.estadao.com.br/economia/pib-brasil-grupo-10-maiores-economias-do-mundo-2025-ranking
- FMI / Worldometer — PIB por país na América Latina e Caribe (2025): https://www.worldometers.info/pt/pib/pib-por-pais?metric=nominal®ion=latin-america-and-the-caribbean&source=imf&year=2025
- Agência Brasil — “Presidentes vão flexibilizar tarifas comerciais do Mercosul” (jun. 2025): https://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2025-06/presidentes-vao-flexibilizar-tarifas-comerciais-do-mercosul
- Comissão Europeia — Texto do Acordo UE-Mercosul: https://policy.trade.ec.europa.eu/eu-trade-relationships-country-and-region/countries-and-regions/mercosur/eu-mercosur-agreement/text-agreement_en
- Agência Brasil — “Acordo Mercosul-UE valerá provisoriamente em maio, confirma governo” (mar. 2026): https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2026-03/acordo-mercosul-ue-valera-provisoriamente-em-maio-confirma-governo
- Agência Brasil — “Diretor brasileiro de Itaipu garante tarifa reduzida em 2027” (abr. 2026): https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2026-04/diretor-brasileiro-de-itaipu-garante-tarifa-reduzida-em-2027
- Ministério das Relações Exteriores — Comunicado Conjunto Brasil-Paraguai sobre Itaipu (nov. 2025): https://www.gov.br/mre/pt-br/canais_atendimento/imprensa/notas-a-imprensa/comunicado-conjunto-dos-chanceleres-do-brasil-e-do-paraguai-mauro-vieira-e-ruben-ramirez-lezcano
- ABACC — Agência Brasileiro-Argentina de Contabilidade e Controle de Materiais Nucleares: https://abacc.org/
- Ministério das Relações Exteriores — Reunião Ministerial da ZOPACAS (set. 2026): https://www.gov.br/mre/pt-br/canais_atendimento/imprensa/notas-a-imprensa/reuniao-ministerial-da-zona-de-paz-e-cooperacao-do-atlantico-sul-zopacas-2013-nova-york-24-09-2026
- V-Dem Institute — Relatório da Democracia 2025: https://www.v-dem.net/documents/63/V-DemDemocracyReport_portuguese_2025_lowres.pdf
- Revista Jurídica da Presidência — “A presidência pro tempore do Brasil no Merco